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Propaganda picante
A constante exposição dos corpos na publicidade, na mídia e nas interações cotidianas associada à moldagem de uma nova moralidade configura-se numa série de repercussões que geram comportamentos diversos.
A ação da mídia no cotidiano das pessoas é mais incisiva do que se imagina. Por trás da aparente liberação física e sexual, existe a conformidade e a necessidade de se moldar um determinado padrão estético. A mídia incita as massas de forma coletiva.
A mercadoria em si perdeu o seu poder fetichista dando lugar ao valor mercadológico, espetacularizado através da propaganda.
Linhas diversas de estudos afirmam que é o uso de corpos perfeitos e ícones que remetem à prática sexual agregam cada vez mais valor às marcas.
A sociedade de hoje é movida pelo capitalismo. Um mundo tomado pela proliferação de tendências e ideias da minoria está em ebulição. Nesse mundo, as pessoas estão sempre receptivas ao prazer. Trabalham mais para possuir mais poder aquisitivo e consumir mais. Em virtude disso, as relações humanas estão mais superficiais, os relacionamentos mais abertos, as práticas sexuais mais acessíveis.
Neste cenário, o erotismo adquire mais consistência, mais importância e ocupa um lugar de destaque na vida das pessoas. O apelo e a recepção ao instinto e ao desejo estão maiores.
Dessa forma, o sexo funciona como um banquete para a publicidade. O discurso psicológico que a mensagem erótica estabelece com o cérebro conduz ao encantamento.
O uso dos veículos de comunicação e o apelo midiático do sexo nas relações cotidianas oferecem a felicidade erotizada. Aquela que é preciso consumar para sorrir.
A propaganda erótica explora um desejo que não tem fim. Agora, mais do que nunca, é preciso encantar o consumidor, seduzi-lo e levá-lo para a cama.
É possível observar claramente o uso de referências sexuais na concepção de peças publicitárias que veiculam a todo instante. Disparos em série de material erótico, pornografia e sexualidade aparecem implícita e explicitamente em todo lugar: no cartaz da cerveja, no anúncio da sandália, no comercial do perfume, no outdoor do futebol, da calça jeans…
O apelo erotizado convence por prometer o prazer em troca da aquisição de determinado produto. O aditivo erótico é útil para vender qualquer coisa.
Freud foi o primeiro a reconhecer o poder que o sexo tem sobre as pessoas. Segundo ele, a sensualidade é um recurso infalível para se conquistar o consumidor.
Empresas como a Mash, Axe e Benetton são conhecidas pelas campanhas publicitárias picantes que põem no ar. Há 15 anos, a Du Loren utiliza o artifício sexual como apelo de vendas, valendo-se de visuais que mostram até homossexualidade explícita.
Neste cenário, os símbolos sexuais viram garotos propaganda. Da figura sensual de Marilyn Monroe, tudo foi aproveitado. O olhar do Marlon Brando transcende gerações. A tendência é transformar o produto em objeto sexual.
Juliana Paes vende de lingerie a cozinhas moduladas; Richard Gere, de carros esportivos a remédios para dor de barriga.
Diante do apelo erótico, o poder de persuasão tende a aumentar, pois o consumidor age pela emoção que sente ao ser provocado sexualmente, mesmo que ele nem perceba.
“Se a propaganda reflete o dia-a-dia das pessoas, não há como deixar de falar em sensualidade.”, assinala Dalton Pastore, presidente da Associação Brasileira das Agências de Publicidade (Abap).
Os estereótipos de Eros e Afrodite vêm à tona nos tempos de Barack Obama e se tornam mais exigentes quando a arte é pós-moderna e a comida contemporânea.
Rita Molick
Lançamento da garrafa de um litro da Água Francesa Perrier
Rita Molick é redatora da Armação e aluna do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; seu objeto de pesquisa e estudo é O poder de persuasão do erotismo na propaganda.


